Quem me conhece sabe que eu atravesso o Atlântico com um Sonrisal em cada mão. Daí, né, CULPA quando o cartão passa na maquininha “e eu nem precisava de mais uma melissa…”. Mas isso agora acabou. Acabo de ler um texto genial que me libertou. Estou curada.
O texto é do Periscinoto, que dispensa apresentações. Mas o legal mesmo é que está num blog, onde ele escreve desde fevereiro de 2008. Tem conteúdo pra ler até ficar vesgo, uma aula de propaganda com um mestre que, mais que publicitário, é um grande observólogo do comportamento humano. Aqui.
E segue o texto:
Escrito em:18/12/2008
NATAL E COMPRAS SEM CULPA.
Aproveitando o cenário do trânsito ainda mais enlouquecido do que o “normal” pelo vai-e-vem dos carros rumo aos shoppings e das multidões disputando espaço nos corredores e lojas dos ditos cujos, ansiosas por esvaziar bolsos, bolsas, detonar os cheques especiais e limites dos cartões de créditos, quero falar um pouquinho sobre o ato da compra e da maneira como encaramos os gastos. Vamos lá. Você já sentiu remorso na hora de pagar o dentista que consertou aquele dente quebrado? Já ficou arrependido de quitar o boleto do plano de saúde que pagou a maternidade? Já saiu beijando santo no ar (aquele tsk, tsk, tsk) de auto recriminação por ter gasto uma nota no supermercado com as compras do mês? Sei que não. Agora o reverso: você já se trancou no banheiro da concessionária chic e, olhando o espelho, ficou recriminando o cara que aparece nele por ter feito um monte de cheques pré datados pra pagar aquela Harley-Davidson Fat Boy mesmo considerando que você tem medo até de andar de bicicleta? Ou, sendo mulher: você já mordiscou as unhas cuidadosamente tratadas depois de ter espanado seu limite no cartão de crédito comprando aquela caríssima bolsa Prada e com alto risco de ser confundida com a da amiga que comprou uma idêntica em Chinatown de Nova Iorque, perfeitamente falsificada? Sei que sim.
Só o bicho-homem inventa necessidades.
Essas diferenças de postura diante de um gasto retratam com perfeição um fato que é sempre divertido abordar: o complexo de culpa nas compras. Antes de continuar, esclareço: não sou antropólogo, nem sociólogo, nem psicólogo. Por vício profissional, sou apenas um observólogo do comportamento de consumo. Assim, o que vou dizer não vale pra sustentar nenhuma tese. E que, sintetizando numa frase, é o seguinte: não há porque ninguém ter complexo de culpa em qualquer tipo de compra. Com exceções óbvias daquelas feitas compulsivamente por distúrbios psicológicos (alguns mais diretos dizem “psiquiátricos”), fora essas, toda e qualquer compra é humanamente defensável. O “humanamente” taí de propósito. É a palavrinha mágica que sintetiza toda explicação porque nós, os bichos-homens, somos diferentes de todos os outros bípedes e quadrúpedes da Terra. Não é preciso assistir ao Animal Planet pra ver que o leão quando tá com fome, simplesmente almoça deliciosamente a gazela mesmo sendo um churrasco cru e sem tempero. Pra dormir, o macaco encaixa-se nos galhos de uma árvore alta e ronca. A zebra mata a sede na margem do rio e pronto. Ou seja: saciar essas exigências físicas realmente são necessidades porque remetem à sobrevivência. Por que, então, o animal homem não faz o mesmo e fica feliz satisfazendo apenas o que ele precisa pra se manter vivo? Resposta óbvia: porque a sociedade humana não é comandada pelas necessidades, mas pelos desejos. O “Homo Sapiens Urbanus” só se contenta com as necessidades verdadeiras, em situações radicais. Quem viu aquele filme com o Tom Hanks onde o avião da Fedex em que ele viajava como funcionário (tremendo merchandising, diga-se) cai fazendo-o viver como sobrevivente numa ilhota perdida, vai lembrar que ele, longe da civilização, buscava desesperadamente conseguir o verdadeiramente necessário: água de chuva pra matar a sede, peixes e cocos pra saciar a fome, folhas de árvores pra se proteger da chuva e descansar. Ou seja: o indispensável pra se manter vivo. Mas fora casos extremos como esse, quem fica feliz “só” com o indispensável à sobrevivência? Resposta: ninguém, nem monge tibetano. A gente quer um montão de coisas porque quer, e estamos conversados. Queremos matar a sede com água mineral engarrafada, comer na mesa servindo-se do bom e do melhor, fazer naninha num quarto com ar condicionado e colchão macio, etc. Síntese 1: somos cercados por pseudonecessidades. Síntese 2: fora o comer cru, beber da fonte e dormir ao relento, tudo que desejamos consumir na vida dita civilizada, é supérfluo.
Consumir com alma lavada. Três dicas.
Estamos acertados que tudo o que excede à sobrevivência é dispensável? Então temos que, sob essa premissa, o conceito de “necessário” é meramente cultural. É um falso necessário porque não está focado na manutenção da vida, mas em confortos que, a rigor, são supérfluos, descartáveis. Seguindo esse raciocínio vou me atrever a dar três dicas pra você se divertir com o prazer das compras (repito: desde que seu consumismo não seja malucamente compulsivo) considerando que tudo, no fundo, é emocional. E, nesse contexto, vale aproveitar o que o ato de consumir tem de entretenimento.
Vamos lá: 1- Pague com dinheiro vivo porque, anestesiado pelo prazer imediato da compra, a sensação do desperdício desaparece no ar e você fica livre de ter que repensá-la depois ao se deparar, na ressaca do consumo, com o canhoto do cheque pré-datado ou a fatura do cartão. 2- Se o valor é insensatamente alto a ponto de tornar inviável pagar com um bolo de notas, mergulhe no crediário buscando esticar ao máximo as prestações porque os valores baixos dão a ilusão de que a compra foi ao seu alcance (desde que você não faça a soma de tudo). 3- Por último, se as duas dicas acima fracassarem, seja descaradamente pidão/pidona, choroso/a, interpretando dramaticamente esta frase campeã no quesito “convencimento”: “comprei porque eu acho que mereço”. Atenção: o “acho” é fundamental na frase porque destaca a autovitimização. E, com isso, tem o poder de amolecer questionamentos, desfazer carrancas, adocicar broncas e transformar olhares críticos em olhares beatíficos direcionados às sacolas que você trouxe do shopping. Diga-se: repletas de maravilhosas desnecessidades. Como sobrevivência você não precisaria delas. Mas pelo prazer de comprar, são supérfluos indispensáveis.