Damas e rei
A mesa redonda era coberta por um feltro verde. Nas bordas, motivos natalinos em trabalho multicolorido denunciavam o capricho peculiar de quem tem todo o tempo do mundo. Mas naquela varanda isso não significava tanto tempo assim.
- Bati.
- Não estamos jogando mais canastra. Agora é pôquer.
- Mas eu não sei jogar pôquer.
- Mas tem dinheiro. Vai cobrir?
Constrangida, Marainha recolheu sua seqüência de oito a dama e torceu os lábios em dúvida.
- Ah. Tá bom. Mais 20.
Soraya e Du trocaram olhares gananciosos e pagaram.
- Quero três, pediu ingenuamente Marainha.
- Duas para mim.
Mesmo com novas cartas, Filó e Emília, mais contidas, entregaram suas mãos, só não mais pobres do que suas pilhas de botões. Botão de casaco, cem reais, botões de calça, vinte reais e assim por diante até o botão de punho por um real.
- Acho que devíamos apelar para a escada. Um leve tropeço e aquele urubu galinha rola quebrando o pescoço, soltou Emília.
- Muito escândalo. E se ele não morre vai virar mais um legume aqui, respondeu Soraya. Precisamos de algo mais intimista.
- Intimista? Andou lendo a Nova de novo, Sô? disse Du.
As senhoras riram com gosto, inclusive Marainha que acabara de mostrar uma trinca de damas.
- De novo? Você está aprontando alguma, acusou Soraya.
- Ela não pode estar aprontando coisa alguma. Ela nem sabe jogar, defendeu Filó, entre sorvidas de chá.
- Ouvi o Bruno reclamar com a cozinheira que o velho urubu não pode comer muito sal. Está com pressão alta, disse Soraya em sussurro intimista.
- Eu também. Estou com quinze por dez, disse preocupada Emília.
- Quem é Bruno? indagou Marainha.
- Quem se importa com sua pressão? Não é você que queremos ver esticar as botas. Pelo menos por enquanto. Vai pagar? cobrou Du.
- Bruno é aquele enfermeiro novo. O de coxas grossas, disse Soraya identificando o enfermeiro novo, de coxas grossas.
- É isso. Chega de Nova para você, disse Durvalina.
Novamente as senhoras riram solto. Dessa vez Marainha baixou duas duplas. Reis e noves.
- Porcaria, reclamou Filomena que acreditava no melhor.
As cartas foram devidamente embaralhadas e distribuídas. A pilha de Marainha crescera o suficiente para abotoar duas camisas e um manteau.
- Enfim, pressão alta é remédio todo dia. Sumir com o remédio não vai ajudar. Leva tempo. Mas e uma overdose? sugeriu Soraya.
- No melhor estilo estrela de cinema. Lembro daquela atriz Jean Charlotte…
- Isso. Coisa de cinema. Mas o velho urubu não teria motivo para se matar, disse Emília. Está levando a vida que pediu a Deus.
Duas mãos subiram imediatamente para o sinal da cruz.
As apostas emperraram em Filó, denunciando seus olhos perdidos. Em silêncio, as outras senhoras esperavam por alguém que trouxesse Filó de volta à varanda.
- Está pensando nos beijos do urubu ou na morte dele?
- Ou no Bruno, riu Durvalina.
As risadas atraíram a atenção de uma funcionária da Chácara Nova Primavera, que sorriu aliviada com o bem-estar de suas hóspedes.
- Senhoras, boa tarde.
- Boa tarde, responderam as senhoras para a funcionária que seguiu seu caminho.
- Estava pensando em tentativa de assalto. Ele guarda uns dólares na gaveta de meias, lembrou Filó.
- Hum. Agora sim. Rápido, simples e com motivo, já imaginava Soraya.
- Um flagrante, um pedaço de pau, um urubu defunto, disse Filó levando a mão para seu quadro negro imaginário e acompanhando a matemática da vingança.
- Quando vamos fazer? E principalmente quem vai fazer?
- Eu sugiro a Filó. Ela foi a última a cair nas garras do urubu. Mágoa mais recente é mais forte, sugeriu Emilinha.
- Mais forte e mais profunda, disse Marainha levantando as sobrancelhas e baixando uma faca invisível no próprio peito.
- Vai ser com um pedaço de pau. Você está tomando seu remédio? perguntou Soraya.
- Que remédio? respondeu Marainha.
- Esquece, devolveu Soraya.
- Isso é fácil, completou Emília.
- Mas pode ser faca também, sugeriu Filomena. Na cozinha tem algumas que parecem já ter ficha corrida.
- Duas para mim.
- Quero uma.
Emília e Durvalina disfarçaram o sorriso de sorte ao verem suas cartas.
Um burburinho vindo do home-theater chamou a atenção das senhoras. Algumas frases de lamentação, um pouco de choro e logo apareceu Bruno, o enfermeiro novo, de coxas grossas.
- Senhoras, boa tarde.
- Boa tarde, responderam juntas, sentindo-se cinco anos mais novas.
- Uma notícia triste. O Seu Vinícius acaba de falecer.
- Meu Deus.
Cinco mãos subiram imediatamente para o sinal da cruz.
- Parece que foi coração, informou Bruno. Ele tinha pressão alta. Quinze por dez.
- Eu também. Ai, meu Deus, disse Emília apavorada.
Bruno apressou-se para contar a novidade para os outros hóspedes e deixou as senhoras com seu carteado. Na mesa, o silêncio foi desconfortavelmente longo. Filó, a mais recente, chorou três lágrimas.
- Lá se foi nossa vingança, reclamou Soraya.
Novo silêncio.
- Ah. Farelo também é pedaço, confortou Marainha, baixando trinca de ases.











